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8 ferramentas de apoio ao tradutor freelancer

Enquanto pesquisava sobre vários tipos de ferramentas de apoio à tradução, com o intuito de tentar perceber quais as mais “adoradas” pelos tradutores profissionais de todo o mundo, encontrei um post no site Escola Freelancer muito interessante sobre esse mesmo tema.

Deixo abaixo o post (para ver o post completo, basta clicar acima no nome do blog).

 

“MEMÓRIAS DE TRADUÇÃO

TRADOS

trados

Vamos começar falando do SDL Trados. Este é, indiscutivelmente, um dos softwares líderes no mercado da tradução.

Desenvolvido originalmente pela empresa alemã Trados GmbH na década de 1980, o software foi projetado desde o início para auxiliar na tradução de textos. O grande impulso que popularizou o Trados ocorreu quando a Microsoft decidiu utilizá-lo para a localização do sistema operativo Windows. Por conta disso, no final dos 90’s o Trados já havia se consolidado como líder no mercado mundial da tradução.

Entre os principais componentes da versão freelance do SDL Trados estão:

SDL Trados Studio – Uma aplicação que permite traduzir textos, criar e gerenciar memórias de tradução e criação de projetos.
Multiterm – Ferramenta direcionada para terminologias.
Translator’s Workbench, o TagEdigor e o SDLX.

Os preços do Trados varia de 99€ a versão Starter de 2011 até 2.195€ a versão Studio 2011 Professional.

Site: Trados

WORDFAST

wordfast

O Wordfast foi desenvolvido por Yves Champollion, um tradutor freelance, gestor de projetos e consultor na área de tradução e localização, com mais de 25 anos de experiência. Originalmente desenvolvido como uma alternativa ao Trados, já conquistou o seu espaço no mercado. No início, o Wordfast funcionava através de um conjunto de macros executados dentro do Microsoft Word. Divulgado através do boca a boca, o Wordfast cresceu ao ponto de se tornar o segundo software de tradução mais utilizado entre tradutores.

Em 2009 foi lançado o Wordfast Translation Studio, que inclui as versões Wordfast Classic e Wordfast Professional – uma ferramenta de Memória de Tradução standalone (autónoma) com base em Java, sendo compatível com muitos dos outros softwares de tradução utilizados no mundo. Embora mais popular entre tradutores freelance, o Wordfast é também utilizado em ambiente empresarial. O preço do Wordfast varia de 400€ na versão Classic ou a Pro, até 500€ a versão Studio, que é a junção das versões Classic e Pro. Mas o tradutor freelancer tem um ótimo desconto de 50% sobre estes preços na compra de qualquer versão. Eu utilizei o Wordfast por algum tempo, e posso garantir que vale a pena o investimento. O site disponibiliza uma versão trial para testar o software, estes são os links oficiais:

Site: Wordfast

Para downloads clique aqui

OMEGAT

omegat

O OmegaT é um assistente de tradução de código aberto, projetado na linguagem de programação Java, foi desenvolvido em 2000. De fácil utilização é bem intuitivo, porém não tão sofisticado como para concorrer com o Trados e o Wordfast, mas cumpre muito bem a sua função.

Na época em que testei o OmegaT, eu estava migrando para o ambiente de Ubuntu(Linux), e esta foi a CAT mais popular entre os ubunteiros na época. Em conclusão até hoje a utilizo e nunca tive problemas.

As principais características do OmegaT são:

·Utilização simultânea de várias memórias de tradução
·Concordância difusa
·Formato de ficheiro de documento: texto simples, HTML, OpenOffice.org/StarOffice (este último contém excelentes filtros de conversão para MS Word, Excele RTF)
·Glossários exteriores
·Propagação de concordâncias
·Processamento simultâneo de projetos com vários ficheiros
·Suporte Unicode (UTF-8): pode ser utilizado com alfabetos não latinos
·Compatível com outras aplicações de memória de tradução (TMX nível 1)

OmegaT é gratuito e tem as versões para Linux, Windows e Mac. Para o programa funcionar bem no computador basta ter o Java JRE instalado e atualizado.

Site: Omegat

SIMILIS

similis

Similis é um software de interface simples e fácil de dominar. Seguindo os exemplos anteriores, Similis é uma memória de tradução, que dá ao tradutor acesso imediato a todas as terminologias que ele utilizou em traduções anteriores e pode centralizar todas as traduções que já foram realizadas numa base de dados. Outro ponto a favor é o fato de conseguir processar os formatos de memória existentes e recuperar as memórias e os glossários já desenvolvidos.

Similis também tem a versão gratuita para Freelancers, mas o site oferece alternativamente um suporte anual por 100€.

As versões comerciais do Similis são as Similis LSP, Similis Server e Libellex, que devem ser cotadas diretamente com o serviço comercial da empresa.

Site: Similis

TRADUÇÃO AUTOMÁTICA

A tradução automática é uma alternativa de custo zero para obter-se uma tradução rápida, porém que não exija muita importância, por exemplo: para traduzir sites estrangeiros, e-mails e alguns pequenos textos, frases ou palavras isoladas. Geralmente utiliza-se para traduzir textos de algum idioma fora do nosso domínio. Por exemplo: para traduzir um texto em japonês ou hindi, apenas para nos dar uma ideia do que o texto está dizendo. Por isso, em nenhuma hipótese estes aplicativos devem ser utilizados profissionalmente. Pois eles traduzem os textos de forma literal, considerando a tradução mecânica da frase ou da palavra, ignorando o seu sentido literário. Isto pode, em algumas ocasiões, produzir frases sem nenhum sentido ou concordância com o texto original.

A seguir vou colocar quatro exemplos de sites de tradução automática, que podem ser úteis tanto para alguém que precisa de uma tradução simples, de um parágrafo, por exemplo, quanto para um tradutor que precisa comparar um texto ou apenas ter uma ideia do significado de um termo que esteja fora do seu conhecimento.

WORLDLINGO

worldlingo

Worldlingo é um tradutor automático que tem vários serviços de tradução instantânea online, gerada pelo próprio sistema. Nele você pode traduzir desde pequenos textos gratuitamente até grande volumes de textos pagando uma mensalidade. O serviço gratuito do site oferece apenas a tradução automática entre 33 idiomas.

O site da Worldlingo também oferece outros serviços para o tradutor freelancer, por exemplo: por US$2 você pode incluir o seu nome numa lista de tradutores no eBay.

Site: Worldlingo

iTranslate4.eu

itranslate4eu

Enquanto eu escrevia este artigo tive a oportunidade de testar algumas das ferramentas apresentadas aqui, em um projeto de tradução que chegou às minhas mãos. O iTranslate4 foi uma das minhas melhores surpresas. Pelo menos entre os idiomas do meu domínio: Espanhol e Português. O teste do primeiro parágrafo do texto me devolveu uma tradução quase perfeita. Claro, foi apenas um “quase”, mas ajudou muito. Portanto, mesmo sem poder confiar 100% nestas traduções automáticas, com o que correríamos o risco de entregar um projeto “meia boca” para o nosso cliente, está comprovado que elas podem ser muito úteis para nos ajudar a gerenciar o nosso tempo.

O site oferece a tradução gratuita entre 31 idiomas, limitada a 1000 caracteres por vez. Também é possível traduzir sites e realizar pesquisas com palavras em outros idiomas.

Site: iTranslate4.eu

My Memory

mymemory

Esta é uma ferramenta interessante, pois além de oferecer a tradução automática, como os exemplos anteriores, também possui um sistema no qual os usuários podem fazer upload das suas próprias memórias de tradução e segmentos de textos traduzidos. Desta forma, o sistema do site organiza todos estes dados e criando um grande banco de memória de tradução. O braço de tradução comercial do My Memory é outro site, o http://www.translated.net/en/, que oferece tradução direta aos clientes, em três formatos: Econômico, Profissional e Premium. A diferença entre os serviços é o número de tradutores designados para o projeto, o controle de qualidade e o prazo de entrega. Neste sistema, uma tradução de mil palavras do espanhol ao português pode custar entre 40€ e 118€ e demorar de um a dois dias para ser entregue.

Site: My Memory

Google Translate

Google Translator

Bom, este sistema dispensa comentários e, com certeza, é a ferramenta de tradução automática mais utilizada pelo público em geral, para se obter traduções rápidas e de custo zero. Neste caso, também podemos fazer o upload do nosso texto e aguardar a tradução automática em questão de segundos. Também podemos editar o resultado da tradução e sugerir uma tradução melhor, se acharmos necessário.

Site: Google Translate

Todas as ferramentas apresentadas neste artigo são elementos modernos que servem unicamente para dinamizar o trabalho do tradutor. Em nenhum momento o tradutor deve ser substituído por um sistema informatizado. A máquina pode traduzir muito rapidamente e com certa eficiência, porém sempre será apenas uma tradução literal e, como foi dito, muitas vezes sem sentido. O ser humano ainda é o único que retém a inteligência natural para adaptar com perfeição um texto entre dois ou mais idiomas, preservando e transmitindo o sentido da mensagem original que o autor emitiu ao escrever.

É claro que vários outros aplicativos ficaram de fora da lista que escrevi aqui. Abaixo segue a lista de discussões de alguns deles:

Dejavu-L

SDLX

Transit

Trans Suite 2000

TW_Users

WordFast

Wordfisher”

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“Tradutor: a profissão impossível” por Noticias Magazine

“Tradutor pode ser uma profissão solitária.

São um nome impresso, em letras pequeninas, algures numa das discretas páginas iniciais dos livros. Não são autores da obra mas são deles todas as palavras que ali se encontram escritas. Os tradutores descrevem‑nos personagens que não criaram, enredos que não idealizaram e ideias que não são as suas. E dão à literatura a possibilidade de ser verdadeiramente universal.

A história rezava mais ou menos assim: «Apesar da inclemência do tempo, ele ia sentado à proa do bote, rumo ao interior do continente. Assustado, arrependia‑se amargamente de não ter inventado uma desculpa para não ir. Podia ter pretendido que tinha coisas combinadas na cidade…» Foi nesta altura que passei de submersa na ação da obra premiada com o Man Booker Prize para uma desagradável noção de realidade que me fez recuar cerca de 230 páginas até chegar àquela que é provavelmente a mais ignorada de todas – a ficha técnica.

Ali estava o nome, desconhecido, de quem escreveu «pretendido», em vez de «fingido», uma opção que comprometeria a minha fé nas seiscentas páginas ainda por ler mas que ao mesmo tempo provocou uma epifania: quantas centenas já de romances lidos, não através das palavras do autor, mas sim através das palavras reescritas com a admirável e engenhosa invisibilidade do tradutor?

A história não surpreende o tradutor João Reis. «Se a tradução está bem, os louros vão para o autor, se alguma coisa está mal, a culpa é do tradutor. E às vezes é mesmo, porque há más traduções no mercado, mas nem sempre, até porque muitas vezes a última versão do livro não é a nossa.» João nunca planeou ser tradutor. Começou por três anos de Medicina Veterinária, licenciou‑se em Filosofia e, pelo meio, começou a aprender sueco num curso livre, por puro gosto pela língua. Gostou tanto que passou para o norueguês, para o dinamarquês e, por último, para o islandês, que teve de aprender em aulas privadas, via Skype, uma vez que, em Portugal, não havia um único professor nativo.

Nunca pensou ser tradutor, mas quando fundou a editora Eucleia, em 2010, os fundos eram poucos e, uma vez que já dominava tantas línguas, depois de ler sobre técnicas de tradução e fazer algumas experiências de forma autodidata, acabou a traduzir muitos dos livros da chancela que criou. Quando os títulos traduzidos começaram a sair não tardaram a chegar contactos de outros editores a propor‑lhe trabalho. Hoje, depois de ter vivido na Suécia, na Noruega e em Inglaterra, foi‑se a editora, vendida, mas ficou a tradução – o ofício que, como lembra, o leitor só nota quando está mal feito.

Talvez não todos os leitores, é certo. António Pescada, 78 anos, tradutor há mais de 40, nasceu numa casa sem livros. O gosto pela leitura ganhou‑o perto dos 20 anos, em Lisboa, nas Bibliotecas da Gulbenkian. Começou tarde mas, ao contrário do leitor comum, por mais invisível que fosse o tradutor, a sua presença nunca lhe passava despercebida. Lia as obras em português e pensava se estariam bem traduzidas. Depois, com o conhecimento de línguas que já tinha, espreitava os originais em francês e inglês e comparava. E ficava a pensar sobre algumas passagens: porque teria o tradutor feito assim e não assado? Interessou‑se pelo russo através dos romances que lia e quis aprender a língua, mas à época tudo o que cheirasse a soviético era suspeito – corria a década de 1950 e era o esplendor da ditadura. Teria de esperar 20 anos até ter aulas formais da língua.

«Lembro‑me, ainda nos anos 1960, de comprar uns manuais de russo de uma coleção chamada Assimil. Depois do 25 de Abril abriu a associação Portugal‑URSS que tinha aulas de russo e inscrevi‑me. » Meses depois surgiu uma proposta de trabalho numa editora Moscovo, onde esteve cinco anos. «A melhor maneira de aprender uma língua é sempre no lugar onde ela se fala.»

Muito estudo e muito tempo depois cumpriu o sonho de miúdo: ler Tolstoi no original. Nunca leu, nem quer ler, o Guerra e Paz noutra língua e confessa que, quando gosta do autor, acaba por se distrair e entregar ao prazer da leitura. «A traduzir A Bela do Senhor, do Albert Cohen, punha‑me a ler e esquecia‑me de traduzir, tinha de voltar atrás quando me lembrava que era trabalho.» Pega no livro, cheio de marcações coloridas. «Estive a reler e são algumas coisas que quero alterar se houver uma reedição, coisas pequeninas, algumas gralhas.»

A tradução desta história de amor sofrida, que lhe valeu o Grande Prémio de Tradução do PEN Clube Português, em 1995, foi um dos seus maiores desafios. «Tem passagens de grande crueldade, outras de grande ternura e um capítulo de 18 páginas, sem uma única vírgula, onde tudo faz sentido. Os grandes escritores têm esse dom.» E o tradutor, também tem de o ter? «Um bocadinho, sim. Tem de saber o que vai na cabeça do escritor, tem de sentir. O tradutor deve servir o autor.»

O tradutor deve servir o autor e o leitor. E, ao serviço do leitor, tem uma tarefa inglória cujo supremo objetivo é não ser notado. Mas alcançar a invisibilidade é um trabalho árduo, um processo que requer técnica e criatividade. «É um trabalho poético, porque há um elemento de recriação muito forte. Mas também é reflexivo porque está lá outra coisa – o original – que nós temos de restituir. Como? Nem sempre é óbvio. As regras, em tradução, são fundamentalmente negativas, passam por aquilo que não deve fazer‑se.

Mas não há uma fórmula para fazer bem», sublinha o poeta, ensaísta e tradutor Miguel Serras Pereira, que traduz do francês, do espanhol, do inglês e do italiano. Longe vão os tempos das primeiras traduções do jornal Le Monde para o Diário de Lisboa e daquele que acredita, sem certeza, ter sido o primeiro livro que traduziu, A Vida Quotidiana dos Primeiros Cristãos. Entretanto, pelas suas mãos já passaram tantos nomes da literatura e da filosofia que qualquer enumeração pecaria por incompleta.

Mesmo sem nenhuma fórmula disponível, o tal equilíbrio entre reflexão e recriação valeu‑lhe, por duas vezes, o Grande Prémio de Tradução do PEN Clube Português, primeiro em 1990, com a tradução de Os Meteoros, de Michel Tournier (Dom Quixote) e, em 2006, pela tradução daquele que é considerado o primeiro romance moderno, Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (Dom Quixote).

«Traduz-se com ouvido para a música do texto», resume Ana Maria Chaves, tradutora de inglês há mais de 40 anos. Aos 70, com cerca de duzentas obras traduzidas em seu nome e perto de cem em regime de tradução colaborativa e em parceria, a ex‑docente da Universidade do Minho e do ISLA de Vila Nova de Gaia defende que traduzir é um talento, como pintar ou cantar. «A teoria e o conhecimento das línguas ensinam‑se e são importantes, mas não chegam. Há que saber ouvir os ritmos, as sonoridades, o comprimento de frase, o estilo do autor.»

É na leitura dessa partitura que encontra o prazer da tradução. Admite que está longe de ser uma leitora compulsiva e não se interessa por crítica literária mais do que o suficiente para perceber o contexto do autor. «Tenho de saber inserir o autor na sua época, claro. Antes de traduzir a poesia das irmãs Brontë, fui perceber quem eram, como viviam, porque escreviam de uma forma tão triste. O contexto é importante, mas há que evitar deixarmo‑nos influenciar por ele porque há um grande risco quando se traduz: ler mais do que está lá.»

O que a apaixona na tradução é o jogo das palavras, fazer um puzzle cujo lugar das peças é determinado por uma certa visão do mundo. «Cada cultura usa lentes diferentes e isso reflete‑se na língua. Por exemplo, os ingleses dizem “I dont think this will happen” e nós dizemos “Eu acho que isto não vai acontecer”, ou seja, fazemos as negativas em pontos diferentes da frase. Parece pouco importante, mas pode significar uma má tradução. Se não for considerado, acabamos a ler palavras portuguesas com a estrutura inglesa.»

Hoje, depois de traduzir onze livros de William Faulkner, o autor já não lhe oferece grandes dificuldades, mas recorda bem que o primeiro livro foi um choque. Tinha começado na profissão há pouco tempo quando lhe propuseram a tradução de Rio Velho para ser publicado em capítulos alternados com a tradução de Jorge de Sena de Palmeiras Velhas. Quando começou a ler a novela – sobre os condenados a trabalhos forçados e a sua jornada através das cheias no Mississípi – houve alturas em que chorou.

«Faulkner usa sete adjetivos para qualificar um substantivo, tem frases de uma página e meia com trinta orações intercalares. Isso é uma marca de estilo tão forte que não é legítimo cortar o texto numa série de frases. Reescrever mantendo aquele estilo exige muito.»

Se, por vezes, a dificuldade pode ser causada pela genialidade do autor, outras tantas é pelo seu oposto. A tradutora assegura que, em prosa, não são as grandes obras que lhe têm oferecido as grandes dificuldades, mas antes a chamada literatura light. «Obrigam muitas vezes a um trabalho de correção de erros e implicam a resolução de problemas complicados porque estão cheias de piadas e trocadilhos, quase sempre intraduzíveis, que exigem adaptação para português.»

 

ADAPTAR OU NÃO ADAPTAR, EIS A QUESTÃO.

Também aí o equilíbrio é ténue, feito das necessidades da obra e da sensibilidade do tradutor. Alguns consideram as famosas notas do tradutor um atestado de incompetência que passam a si mesmos, outros garantem que é um recurso necessário para não despojar o leitor do contexto. «A adaptação pode ser necessária, por exemplo, se há rima. De contrário, se o leitor está a ler um romance russo deve perceber que o romance é russo. Adaptar demasiado é roubar o contexto ao leitor», defende António Pescada. Por isso, sempre que aparecem palavras intraduzíveis como samovar, balalaica ou troika (que são três cavalos ou um carro puxado por três cavalos), recusa‑se a adaptações e opta por uma breve nota explicativa. «Não podemos expurgar as obras do seu ambiente, cor e sabor local.»

Em algumas situações, se o tradutor tem dúvidas há outra solução: perguntar ao autor. «Não é a regra, mas pode acontecer. Quando traduzi o Danúbio, do Magris, escrevi‑lhe a perguntar algumas coisas. E também há autores que escrevem a por‑se ao dispor», conta Miguel Serras Pereira. Há até alguns bastante participativos, como Milan Kundera, que frequentemente apresenta pedidos de esclarecimento sobre as opções de tradução. «Lembro‑me de que no livro A Ignorância ele falava muito sobre a “nostalgie”. Traduzi por “nostalgia” e ele escreveu‑me a perguntar porque é que não tinha usado a palavra “saudade”.

Lá expliquei que não se adequava e porquê. Aceita muito bem todas as explicações, mas vê tudo de forma muito escrupulosa.» As mãos de Miguel Serras Pereira esquecem‑se do cachimbo e o rosto abre‑se num meio sorriso quando resume assim o ofício que tem há 40 anos: «É uma profissão impossível – digo‑o muitas vezes. Cada língua tem uma relação única de som e de sentido das palavras. É impossível escrever o mesmo noutra língua.» Essa é também uma das ideias exploradas por Umberto Eco no seu livro Dizer Quase a Mesma Coisa – Sobre a Tradução. Apesar de ter alcançado a fama com títulos como O Nome da Rosa e Baudolino, Eco era semiólogo, linguista e tradutor, além de autor.

Isso dava‑lhe uma perspetiva única da tradução. Defendia que era uma negociação, um processo no qual se renuncia a alguma coisa para obter noutra. E que, no processo, aquilo que se obtém é quase, mas nunca verdadeiramente a mesma coisa. Traduzir pode ser impossível, mas é necessário. Os autores sabem-no, melhor do que ninguém.

José Saramago escreveu que são os tradutores quem faz a literatura universal, Púshkin afirmou‑os os carteiros da civilização humana, George Steiner garantiu que, sem tradução, viveríamos nas províncias que fazem fronteira com o silêncio.

O PROBLEMA DA FALTA de reconhecimento da profissão não começa no leitor. As editoras que colocam o nome do tradutor na capa são a exceção, mas a clara identificação do tradutor, defendida por todos os que se dedicam ao ofício, não se prende apenas com as razões mais óbvias, de reconhecimento. «É também uma responsabilização», diz António Pescada. E, claro, a sua ausência espelha a desvalorização do trabalho e a perda de direitos sobre a tradução. António Pescada garante que teve fases em que traduzia 10 horas por dia para conseguir um rendimento confortável; João Reis recorre à tradução técnica, bastante mais bem paga, para equilibrar o orçamento e lembra que Portugal é dos poucos países europeus onde o tradutor não recebe percentagem sobre as vendas ou reedições; Miguel Serras Pereira diz que, em 2010, quase todas as editoras baixaram os preços para valores impossíveis.

Apesar de o Código dos Direitos de Autor considerar a tradução uma obra equiparada a original e dizer que, «salvo convenção em contrário, o contrato celebrado entre editor e tradutor não implica cedência nem transmissão, temporária ou permanente, a favor daquele, dos direitos deste sobre a sua tradução», o facto é que deixa margem para a convenção em contrário. «Em Portugal, o tradutor perde sempre os direitos sobre o que traduz. Os contratos estipulam que todos os direitos são do editor, que pode vender, revender ou reeditar sem nos dizer nada. Até pode alterar o nosso trabalho.» João Reis frisa que os editores não são todos iguais, mas conta que já viu títulos de traduções suas serem mudados, sem uma palavra, e só o descobriu com o livro já impresso. «Quem seja excessivamente orgulhoso, como tradutor, está na profissão errada.»”